30/05/2017

tão isto #5

'Verdadeiramente, não me assusta a ideia de ficar sozinha. Porque acho que tenho trabalhado a minha companhia durante estes anos. E sou pessoa inteira para se estar. Assusta-me mais, a ideia de não me vir a apaixonar outra vez, porque não há fatia de presunto Joselito, nem tinto reserva, nem saco de gomas ácidas que te dê o que te dá uma paixão. Mas não dá para viver esperando por isso, porque o buraco alarga quando se espreita para dentro. E nós somos o segredo de nós mesmos. E não há vazio algum nesse amor próprio que pouco se reclama. Estar numa relação é maravilhoso (quando é efectivamente maravilhoso) a cumplicidade e a partilha enriquecem os momentos e a vida ganha lustro. Mas há campos de petróleo, salinas e minas de diamantes aqui dentro, onde pouco procuramos, quando andamos em desespero à espera que um outro, que ninguém sabe bem quem, nos salve. 
Somos tão egoístas em geral e nesse capítulo tão singular do amor, depositamos toda a generosidade num outro. Dá mais preguiça aprender a gostar de nós que curtir o próximo. Não devia ser tão mais tentador viver apaixonado por nós mesmos? Sem o narcisismo convicto dos egocêntricos, nem a altivez dos egoístas. Aprender a gozar-nos, a descobrir na nossa companhia um vício bom e não um antídoto da solidão. Como é que as relações hão de ser plenas, se as pessoas já entram à espera de serem completadas? É um meio gás que só é bom para os refogados. O vício da companhia é lixado, eu sei. Dependente assumida de pessoas. Não há pior droga que não saber estar sozinho. Como se nos abandonassem numa casa assombrada, tal é o pânico da antestreia de nós mesmos. 
Mas devia ser ambição de todos. Esse amor-próprio que define o próprio amor, essa condição que define o sucesso da equação inteira. Faltas-nos pouco dentro de nós. Pouco mais, que puxar pelo descobridor destemido que vai às entranhas do ser. O que é que podemos encontrar que não seja pertença de nós mesmos? E que se dê de caras com uma alma desmazelada! Aproveite-se o encontro para lhe puxar o brilho.
Eu já me enfiei lá para dentro. E não precisam de levar telefone com lanterna acesa. Eu também achava. Mas não é escuro. É luz.'

Isabel Saldanha
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