17/07/2017

Ilha de São Tomé

Situado no Golfo da Guiné, São Tomé e Príncipe forma juntamente com as ilhas de Pagalu e Bioko, o grupo dos arquipélagos do Golfo da Guiné, na costa oeste africana.



Será sempre o meu registo como viajante, produto do que sou, das circunstâncias que vivi e de tudo o que valorizo. Feito com uma delonga temporal que ultrapassa o deslumbre intrínseco de uma pós-viagem. Sem o cálculo mental da diferença horária, sem passar as fotografias em revista três vezes por dia, sem transpor as memórias do que vivi há uma, duas ou três semanas no mesmo dia e à mesma hora. Não me vou alongar em detalhes de uma espécie de diário de viagem, porque passou algum tempo, a vida corre a um ritmo galopante, a ilha é rica em cenários e o registo fotográfico fala por si.

São Tomé não é para toda a gente. Não é parecido com as Caraíbas nem se encontra qualquer semelhança com o monocromático das capitais europeias. Não há fome, não há miséria extrema, não há doenças graves. Também não há cinema, nem teatro, nem esplanadas glamourosas para curtir o pôr-do-sol. E ir jantar fora significa muitas vezes comer peixe assado numa barraca junto à praia.
São Tomé não é para toda a gente. Há alguns portugueses a viver em São Tomé e Príncipe e há ainda aqueles que lá viveram e que têm um património de imagens e memórias carregados de histórias. O que se encontra, acima da paisagem intacta, é a autenticidade das pessoas, acima da nobreza secular das roças, os sorrisos atravessados das crianças, acima da biodiversidade saturada de verde, a entrega, a simpatia, as pessoas (em estado puro e bonito).

Sorver São Tomé e Príncipe exige um coração aberto, uma alma que não tenha medo de pessoas nem horror de baratas (as minhas reacções alérgicas a baratas foram largamente ultrapassadas pela minha paixão por pessoas), um generoso espírito de aventura e algum desprendimento de conforto. Facilmente esquecido pelos cenários ricos, pelo acolhimento de pessoas praticamente não contaminadas pelos factores negativos do desenvolvimento.




Para as duas noites que fiquei alojada em São Tomé escolhi o Omali Lodge e, arrisco a dizer, que é o melhor hotel na ilha. Confesso que não o aproveitei devidamente, as comodidades e cenários que tem para oferecer, porque o objectivo era mesmo explorar a ilha, em estado selvagem e idílico, mas, apesar do espírito livre, o requisito mínimo de segurança passava por um alojamento condigno.

Simplificando, na ilha de São Tomé existem 3 rotas para dar a volta à ilha: O Norte, o Sul e o Centro.

No primeiro dia, coincidente com o voo interno do Príncipe para São Tomé, e encurtado pelo atraso deste, as visitas circunscreveram-se ao Centro, onde é obrigatório parar na Roça Monte Café e beber café arábico produzido na roça, almoçar na Roça da Saudade (Casa onde Almada Negreiros nasceu), percorrer a estrada (em péssimo estado de conservação) até à cascata de São Nicolau e, para quem vá com mais tempo, são interessantes algumas opções de caminhada por ali. Até ao sol desaparecer ainda foi possível visitar algumas roças no Norte (Monte Café, Bela Vista e Agostinho Neto), mas ficaram guardados para o regresso os mergulhos na Lagoa Azul, as famosas santolas em Neves, a cidade piscatória de Santa Catarina, namorar os últimos raios de sol na Praia Moças e o Padrão dos Descobrimentos que assinala o local onde desembarcaram em 1470 os primeiros descobridores portugueses, João de Santarém e Pêro Escobar.

Da Casa-Museu Almada Negreiros:






De todos os países onde já estive, nenhum deles bate a simpatia das pessoas deste país, a disponibilidade sorridente. Talvez ajude que a cultura do turismo, em crescente, não tenha minado a ilha de interesses estratégicos e pedinchices. As crianças pedem doces à beira estrada quando abrandamos para contemplar a paisagem. E ainda que não seja aconselhável andar pela ilha a distribuir cáries, até isso é doce, quando comparando com a descarada mendicidade de alguns países, onde os habitantes não se inibem de cobrar dinheiro por cada foto tirada, depois de se fazerem à pose. Apesar do aspecto degradado das sanzalas (casas dos antigos trabalhadores das roças, convertidas em habitações comunitárias) é muito fácil percorrer descontraído as ruas e falar com as pessoas. Haverá poucas que se escusarão a falar e o mais difícil mesmo vai ser abandonar o pedaço dessa experiência para seguir viagem.
Adoro boas conversas e, por isso, não será de estranhar que me demorei nas roças a conversar com os locais, porque só pela voz de quem lá mora se conhece o espírito do povo. Em vez dar de dinheiro, em troca da generosidade genuína, de quem conversa a troco de nada, é tão mais gratificante oferecer uma Rosema gelada e ficar ali a beber com as pessoas.  As crianças adoram fotografias, adoram ver as imagens devolvidas no ecrã de um telemóvel e a infinidade de rostos sobrepostos. E tudo o que se perde em nitidez de imagem é compensado pela experiência deliciosa de se viver.

São Tomé e Príncipe é uma antiga colónia portuguesa. Só na ilha grande estão contabilizadas aproximadamente 150 roças: antigas plantações de café, cacau e côco. A maioria delas encontra-se em avançado estado de degradação, mas todas, quase sem excepção, valem uma visita. Porque, de repente, por entre a malha verde da floresta e das praias, o paraíso acabou e uma enorme cidade-ruína emerge, como um monstro a erguer-se do passado, numa sensação de paz e um saudosismo muito português (daquilo que não vivi, porque tem mais de 40 anos).
Sobre as roças deixo dois artigos interessantes aqui e aqui.



Da Roça Belavista:



Da Roça Agostinho Neto:











 



O Sul é o caminho mais verde, as estradas estão bastante melhores que no Norte e dá para conversar sem bater com os dentes. Nesta viagem encontram-se as melhores praias da ilha: a Praia de Inhame, a Praia Piscina, a Praia Jalé e em Ponta Baleia é possível apanhar o barco até ao Ilhéu das Rolas (já dei a minha opinião sobre o Ilhéu, são apenas 3 km2 com uma população de 200 trabalhadores que trabalham em exclusivo para o único resort da ilha (do Grupo Pestana), portanto... só se houver tempo a sobrar). E reforço a ideia: as praias em São Tomé são bonitas, não contesto, mas nenhuma se compara à magnitude de água verde esmeralda transparente da Ilha do Príncipe e das mais bonitas do mundo: a Praia Boi, a Praia Banana, a Praia de Santa Rita, a Praia Bombom e a Praia Macaco.
Ainda a Sul, além do fato de banho obrigatório para um mergulho em cada uma das praias, não se deve descurar a visita às roças e às povoações (em termos de roças tive apenas oportunidade de visitar a Água-Izé e São João dos Angolares), algumas saídas da estrada principal e aventura à descoberta dos trilhos, que levam a pequenas vilas encostadas a praias que não constam dos mapas.







Da Roça Agua-Izé:










 






Da Roça São João dos Angolares:






















Da Praia Jalé:






Da Praia Piscina:













Por fim, em jeito de súmula doce, uma eterna apaixonada por chocolate, em terra de produção de cacau, não poderia deixar de mostrar a visita guiada à casa onde são produzidos os Chocolates de São Tomé e Príncipe - Claudio Corallo.




Onde comer:

Na cidade
No Norte
  • Em Neves, as famosas Santolas de Neves no caminho para Santa Catarina, depois de um mergulho na Lagoa Azul;
  • Casa-Museu Almada Negreiros Uma varanda com uma vista deslumbrante sobre a floresta equatorial.
No Sul
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