09/07/2017

Ilha do Príncipe

Em termos de distância, a ilha do Príncipe fica a 140 km de São Tomé, a 220 km de Gabão (a leste), a 300 km da Nigéria (ao norte) e a cerca de 250 km dos Camarões e da Guiné Equatorial. Com uma paisagem extraordinária, o Príncipe está coberto de grandes picos vulcânicos tendo uma cobertura de 70% de floresta primária, dos quais 20% árvores, orquídeas e pássaros considerados endémicos.



Ultrapassadas as pequenas anotações factuais, apercebo-me que passaram mais de três semanas desde que regressei e demorei tempo demais até conseguir escrever sobre São Tomé e Príncipe (STP). Escrever faz-me voltar a viver e recordar a semana que passei nas ilhas lindas, de roças e praias sem fim. De cheiro a café e sabor a cacau, mar de peixe maravilhoso e florestas densas de verdes únicos. Porque escrever sobre São Tomé e Príncipe é muito mais do que o meu relato como viajante, é voltar a sentir em mim a criançada a correr, as gargalhadas fáceis, o povo simples de sorriso inteiro. As ilhas de banana e fruta-pão, de coqueirais e da nossa história, num cenário perfeito que me marcou a pele e a alma.

Mas há sempre coisas que serão difíceis de escrever (mesmo que seja mais fácil escrever do que falar), como o momento em que aterrei na Ilha do Príncipe. Estava cheia de sono, não dormia há mais de 24 horas, tinha apanhado dois voos, uma seca nas esperas em aeroportos e um coração meio inquieto pelo desconhecido. Estava cansada, cansada, mas tive naquele momento a certeza que ia ser muito feliz ali. E fui.


A Ilha do Príncipe é um dos sítios mais bonitos do Mundo e, acredito, só se compreende mesmo depois de visitar. É um pedacinho de África completamente diferente.

Não existem voos directos para a Ilha do Príncipe e não é tão-pouco um destino que "nos vendam" nas agências de viagens. Quando se procura uma semana de férias em STP há sempre um belo pacote que inclui São Tomé (a ilha principal e a maior) e o Ilhéu das Rolas (mais turístico e conhecido pelo atravessamento da Linha do Equador) que, não desfazendo o mérito deste combinado, não consigo bem entender. Porque falta o Príncipe, um dos últimos paraísos na Terra, um lugar mágico, uma ilha arrebatadora (digo sem pretensão maior, fui completamente conquistada pela ilha assim que pisei a gravilha do aeroporto). E não posso deixar de notar que devo o privilégio de ter a conhecido graças a uma entrevista dada pela Estrela Matilde (aqui), uma portuguesa que vive na Ilha do Príncipe, que encontrei por mero acaso ao googlar "o que visitar em São Tomé e Príncipe" e que me fez ter a certeza que era ali, principalmente, que queria ir. A intuição fez o resto.

Falar da Ilha do Príncipe e não falar do Bom Bom Príncipe Island é quase impossível nesta viagem. O Bom Bom é um dos poucos resorts da ilha e é simplesmente um sonho, com bungalows plantados na praia. Os preços não são os mais simpáticos, mas tenho a certeza que a culpa do gasto é amenizada com o primeiro mergulho numa das duas praias pelo qual é banhado (a Praia Bom Bom e a Praia de Santa Rita), pela vista da areia dourada pelo sol e por se sentir no meio da floresta tropical do Príncipe. Há algo de muito especial que circunda o Bom Bom e subscrevo, indubitavelmente, as palavras de quem tão bem dele sabe fazer: "o verdadeiro luxo é a simpatia genuína de quem recebe, a simplicidade luminosa dos espaços, os cheiros exóticos das flores e a sinfonia matinal que a natureza prepara para lhe dizer “bom dia”. Do pequeno ilhéu que emprestou o nome ao hotel Bom Bom, segue uma ponte de madeira com 140 metros, capaz de absorver cada suspiro de quem a atravessa e promete voltar." Tudo é especial neste paraíso escondido em África. A temperatura da água, os cenários idílicos, os cheiros a fruta e a beleza natural, o ritmo "leve-leve", o tempo que se prolonga infinitamente, as cores e sabores tão característicos, as praias quase desertas e as pessoas, sempre as pessoas. O mais importante para quem viaja de coração aberto.

Na Ilha do Príncipe vive-se simples, sente-se a dupla insularidade, uma leveza e paz como em nenhum outro lugar, todos sabem da vida de todos (é uma aldeia com pouco mais de 5.000 hab) e toda a ilha funciona a gerador e a partir da meia-noite é a escuridão total, com excepção do resort Bom Bom.














O restaurante do Bom Bom é qualquer coisa de extraordinário. O ambiente é romântico (eu, pessoa a viajar sozinha, amei ver-me ali instalada e romance não faltou ahahah), de decoração simples e cuidada, com uma vista de cortar a respiração. As refeições podem ser feitas no interior ou no soberbo deck em cima da praia e os sabores ficam para sempre gravados no palato. Os menus obedecem à sazonalidade do tempo, às iguarias são tomenses e às excentricidades oferecidas pela terra:  mata-bala, jaca, cajamanga, sape sape, jaquente, fruta-pão, banana, maracujá, ananás, makêkê, mikókó, óleo de palma, côco e cacau. Tudo delicioso.

E quer em São Tomé quer no Príncipe não se deve sair sem provar as especialidades gastronómicas, tão ricas e saborosas:
O Molho no Fogo, sem dúvida o que mais gostei. É uma espécie de caldo com vários tipos de peixe, seco e salgado e makêkê.
O Calúlú de peixe ou de galinha, do qual não fiquei tão fã. Não é mau, mas também não me agradou imenso e não sei muito bem explicar em que consiste ("fecha os olhos e come" ahaha).
Os acompanhamentos, todos a maior delícia, desde o pintado (arroz com feijão), concon frito com banana frita, mata-bala, fuba e banana-pão frita (mhamiiiii).









Foram dias de puro descanso, dias na ilha onde o tempo não tem importância e não há dimensão temporal, sem agenda e sem os luxos e tiques a que estamos habituados, de desfrutar tranquilamente de uma boa refeição na minha própria companhia, e de um gozo profundo pelo mimimi que sentia à volta da "portuguesa" que tinha chegado sozinha à ilha, de muita partilha com os locais que são amorosos e que se desfazem em cuidados.







Mas estar numa ilha mágica e não desfrutar do lugar único que é seria demasiado redutor, porque na Ilha do Príncipe há toda uma diversidade de programas que valem muito fazer. Vale a pena conhecer a Roça Sundy, a Roça Paciência, a antiga Roça Porto Real (que acabei por não conhecer) e espreitar o projecto de recuperação das roças que a empresa HBD (Here Be Dragons), que o milionário sul-africano Mark Shuttleworth está a desenvolver.
Uma tarde combinei com um dos portugueses que trabalha e vive na ilha, o Rúben, irmos fazer um passeio (tour) pelas praias maravilhosas (das mais bonitas do Mundo), passando pelos miradouros e por algumas roças da ilha.
Desde a Praia Banana, a Praia Macaco, a Praia Boi, todas de cortar a respiração, passando pelo Hotel Belo Monte, pela Roça Paciência e pela Roça Sundy, esta última já alvo de intervenção pela HBD para alojamento turístico, lado a lado com as inúmeras famílias que vivem nas antigas senzalas do tempo colonial, foi toda uma experiência sensorial e enriquecedora. E no final do dia, ficou um desejo muito grande que o Príncipe se mantenha sempre assim, sem os efeitos negativos do desenvolvimento (o que está a ser implementado é um desenvolvimento sustentável), mesmo que a vontade de ficar multimilionária, comprar um roça e transformá-la num sítio bonito para viver seja grande.

Das praias:






Da Roça Paciência:










Da Roça Sundy:




Foi nesta ilha, mais concretamente na Roça Sundy, das poucas que está bem cuidada, que foi comprovada a Teoria da Relatividade de Albert Einestein, por Sir Arthur Eddington, em maio de 1919. E os marcos estão lá.


O dia acabou já com o céu escuro (as tardes são curtas nas ilhas), no bar/restaurante da Roça Sundy, com o som da floresta densa (aqui a floresta tem mais força que o Homem) como pano de fundo, um Gin tão bem preparado e muita conversa gostosa. Porque no Príncipe é muito fácil sentirmo-nos em "casa", todas as pessoas são importantes, todos passam a saber quem tu és muito rapidamente e te tratam pelo nome. E se generosidade for grande e o espírito livre, não será difícil sair da ilha com o coração cheio de pessoas, de histórias, de alegrias e tristezas.

A Ilha do Príncipe prima pela preservação do maior número de espécies endémicas (únicas e que só existem naquele lugar). Sempre que possível é bom desfrutar das caminhadas, a temperatura no interior da floresta é mais fresca, e não há nada como caminhar ao ritmo da melhor fotossíntese. Um palco de verde onde os actores principais são a fauna e a flora, onde devemos assumir o papel secundário e desfrutar somente do que a natureza nos dá.
Diria que não tem comparação com nada no Mundo, nem mesmo com São Tomé, e sinto que ainda deixei muito por fazer, desde o mergulho e as imensidões que existem debaixo de água, a desova das tartarugas (entre novembro e março), a Roça Porto Real, a Roça Terreiro Velho, onde é produzido o cacau da Claudio Corallo e que dá origem aos chocolates de São Tomé e Príncipe, a cidade de Santo António (capital e a cidade mais pequena do mundo).












Foram cinco dias no Príncipe, seguidos de dois em São Tomé, suficientes para revitalizar o corpo e a mente, ainda que me tenha sabido a pouco, porque tenho a certeza que mais uns diazinhos e o meu DNA tinha sido reprogramado. A Ilha do Príncipe é muito mais do que um paraíso, é mais profundo e a vida é reduzida ao essencial. E isso sente-se, mesmo de "passagem".


Onde comer:
Optei pela regime de meia pensão e acabei por ir fazendo os almoços em #modosnack no bar do Bom Bom, mas é sempre possível almoçar na capital (cidade de Santo António) ou a caminho da visita das roças. Dos que me foram falando, e aconselhando, há a Bela, a Rosa Pão, a Ana, o Ramos, o Passô e o Mira Rio.


Onde dormir:

Não foi fácil a despedida, mesmo que amenizada pela promessa de voltar. Porque será sempre difícil despedirmo-nos do que nos faz bem. Porque ninguém fica indiferente a uma viagem e eu tenho - já - muitas saudades.

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