05/07/2017

São Tomé e Príncipe - I

Foi a minha primeira vez em São Tomé e no Príncipe. Não terá sido certamente a última. Foi a minha primeira viagem sozinha, uma das maiores e melhores experiências da minha vida.
E assim começa o meu diário sobre esta viagem, que será sempre tão pouco perante aquilo que vivi, porque hoje, com propriedade, posso dizer que "todos devíamos viajar sozinhos (pelo menos) uma vez na vida". 

Sou feliz, não o nego e faço um pouco disso "bandeira". Uso e abuso do amor, dos beijos e dos abraços, digo vezes sem conta às minhas pessoas bonitas (e são tantas) que gosto muito delas, danço ao som da música da vida e sigo à boleia dela, sozinha ou de mãos dadas. Esforço-me por não me queixar, de nada nem de ninguém, cuido de mim, colecciono sunset's, saio da zona de conforto do mesmo jeitinho que me aninho no meu abrigo, leio livros, tenho uma vida social activa, muitos e variados gostos, choro, rio, tenho medo, sou forte, agradeço imenso a sorte que tenho, os dias e o simples facto de respirar, a sorte de ser do bem, das pequenas sortes e dos grandes acasos. Desafio-me, mudo a vida e tento todos os dias ser um bocadinho mais feliz.

Precisei de "fugir", porque aquilo que amamos também nos cansa. E eu precisava de "desligar" do mundo, para voltar a ser o melhor para mim e para ele. 
Não foi uma viagem muito programada. Partiu da minha vontade, do privilégio de estar realmente onde estou e do facto de por mais que se organize a vida para a frente, tendo em conta o que está lá atrás, saber que este era um momento essencial para o meu equilíbrio. Associada à minha noção de finitude da vida, que me impele a aproveitar todos os momentos e todas as oportunidades que vai pondo no caminho, com mais leveza, com mais receptividade ao que me rodeia e com menos "receitas".
Apenas algumas das minhas pessoas bonitas chegaram a saber antes desta viagem acontecer, ouvi alguns receios e opiniões, mas nada havia a fazer: ia mesmo viajar sozinha, ia uma semana para São Tomé e Príncipe, numa espécie de "pausa da vida", aos 30.

Praia Bom Bom | Ilha do Príncipe

Foi uma semana MUITO FELIZ.
Foi uma semana de descomplicar, de sentir profundamente, de me dar e de receber a dobrar. Foi uma semana de foco, de traçar planos, de muito escrever, de muito falar (viajar sozinha tem esta magia, talvez falemos mais do que se estivéssemos na companhia de uma turma inteira), de muito alinhar, de muito acreditar, de abraçar e de agradecer. Foi uma semana de muita aprendizagem do lado de dentro e de uma gratidão imensa.
Foi uma semana de lições de vida, de desapego, de gozar e de limpar o que não tem significado. De perceber o valor real que algumas coisas têm para mim, de as assumir, assumindo a minha verdade.
Foi uma semana com muitas horas de sono, de muita recuperação de energia, de muitos sorrisos (porque, no fundo, o Mundo (só) precisa disso), de muita força e de um orgulho grande. Foi uma semana de dizer obrigada a mim pela simplicidade de viver como sou, com muita qualidade e responsabilidade, de saber filtrar o que não importa, de saber o que me faz feliz. Foi uma semana em que a vida aconteceu lentamente, naquela primeira luz que fica na pele, naquele acordar e adormecer a ouvir o mar (um privilégio), naquela serenidade que (só) o tempo traz: tudo o que é para ficar, acontece devagar.
Foi uma semana sem filtros, sem rodeios, sem me fazer duvidar de todas as minhas bênçãos. De fechar os olhos, deixar acontecer silêncio em mim e pensar, num dos momentos apoteóticos da viagem, entre um riso manhoso e algumas lágrimas: Sim, estou mesmo no Príncipe, sozinha, e estou imensamente feliz.
Porque algo me acompanha sempre: a certeza de saber onde estão os abraços que preciso.
Estão do lado de cá, mas há muito que quero fazer do lado de lá (juntinho à linha do Equador)*.

*Mesmo que deixe sempre que a vida me diga o que devo fazer com ela.
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