29/08/2017

Saudade é

A cidade que fica para lá do vidro embaciado embrulhada em nuvens.
Um reflexo na janela molhada.
O chuveiro ainda húmido com vestígios.
O perfume da almofada do outro lado da cama.
A cama vazia.
Um casaco que me defende da chuva oblíqua e áspera.
A chuva que é só… chuva.
O bolso que guarda o último bilhete de cinema.
As mãos dadas na rua e os dedos entrelaçados.
A ausência das paredes de um abraço. Grande.
A palma da mão sem sinais do toque.
A cidade embalada em música.
A mesa posta só para mim.
O eco do silêncio.
As fotografias que faltam nas molduras cá de casa. 
A casa arrumada.
A cama feita.
As luzes apagadas.
Os finais de tarde quentes a ver o rio.
O barulho da chave na porta.
Uma garrafa de vinho tinto e dois copos.
O amor mudo.
O beijo intangível.
As massagens.
As refeições preparadas sem pozinhos mágicos.
Os dias atrasados.
O tempo que engole a pressa.
O divórcio dos corpos.
A vida sem par.

Às vezes, no meio de tudo o que ganhei, tenho saudades.
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