20/09/2017

"Para quê dormir?"

"Estou de visita. Dois dias, é o tempo que me demoro na cidade maravilhosa.
Para quê dormir?
Hoje vamos tingir a pele com promessas. Tenho o cabelo ondulado de tanto suar a sambar, e a maquilhagem desbotada das lágrimas que derramei. Chorámos de tanto rir, e de tanto temer.
Para quê dormir?
O sol está prestes a nascer por detrás do morro. A praia ainda está deserta. Não tarda chegarão os vendedores. Ah, o que eu não dava por um pastel de frango com catupiry.
Para quê dormir?
Vamos tomar o café da manhã, diz ela. Pequeno-almoço, corrijo. Ela já não é Portuguesa, é do mundo. Ganhou este jeito livre de viver. E nisto, despe o vestido cor-de-rosa bebé, a sua cor preferida, joga-o na areia e corre até ao mar. Os seus cabelos loiros balançam de um lado para o outro, soltos, tão livres quanto ela. Corre com a impulsividade que se lhe instalou na alma, em sincronia com a sua vontade. Já do oceano acena na minha direcção e grita: VEM! Eu, presa em mim, movimento o meu indicador para a esquerda e para a direita como quem nega o convite. Insatisfeita, corre de novo na minha direcção. Qualquer maquilhagem ou preocupação que restasse escorre-lhe pela pele e os seus cabelos molhados estão agora presos ao rosto. Traz o mesmo sorriso estampado no rosto e os braços abertos para me abraçar. Fujo, evitando molhar-me. Como que contagiada pela sua meninice, dou por mim a correr para o oceano também.
Tem sido sempre assim a vida inteira. Eu a resistir e ela a desafiar. Eu a cumprir e ela a infringir. Eu a rejeitar e ela a convencer. Eu a controlar e ela a soltar. Eu a questionar e ela a afirmar.
Para quê dormir?
-Vamos tatuar a pele!
-Vamos! Respondo, desta vez, sem questionar."

Catarina Mira

Tem sido (mesmo) assim a - nossa - vida inteira. Sem a clarividência sobre quem resiste e quem desafia, quem cumpre e quem infringe, quem rejeita e quem convence, quem controla e quem solta, quem questiona e quem afirma. Neste equilíbrio entre o certo e o errado, o suposto e o possível. Nesta simplicidade feliz, de sermos "apenas" a extensão uma da outra, e na certeza que nada nos falta quando não estamos em falta. 

Parabéns Maravilhosa, 
A outra parte de ti.


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