10/11/2017

Paddy Cosgrave | Entrevista ao CEO da WebSummit

A propósito da 7.ª Edição da WebSummit - que aconteceu em Lisboa nos últimos dias - não posso deixar de notar a entrevista a Paddy Cosgrave, CEO da WebSummit, que pode (e vale muito a pena) ser lida na íntegra aqui

"Quando lhe pedimos que nos exemplifique como marcaria um restaurante e decidiria o que fazer à noite senão tivesse Internet, atira-nos com um “Serendipity has been taking hostage. Têm esta expressão em Portugal?”. Respondemos que não, que serendipity é um feliz acaso, uma feliz coincidência e que, sendo assim, em português a expressão significava que a Internet tinha vindo raptar esses felizes acasos e que fez deles seus reféns."


"— Há problema em estarmos offline?
— Não, está tudo bem.
— Não fica ansioso quando está sem telemóvel?
— Não, regra geral nem utilizo o telefone. Desligo-me totalmente.
— A sério?
— Sim. É útil para pensarmos.
Passavam 15 minutos da hora marcada quando nos encontrámos com Paddy Cosgrave em frente à Casa Bota Feijão. Fachada laranja, barra azul e porta de madeira à antiga. Do lado de cá, nada fazia prever a agitação de talheres e pratos que ouviríamos mais tarde nas várias salas — pequenas, apertadas, bem temperadas com azeitonas, pão e manteiga. Quando chegámos, porta fechada. Mas lá dentro estão duas doses de leitão religiosamente guardadas à nossa espera. “Isto já fechou”, disse um dos empregados.
Pedimos desculpa (o atraso era nosso) e minutos depois estávamos sentados numa espécie de mini divisão soalheira: uma mesa em L com seis lugares e uma janela. “Estão bem aqui?” Estávamos. Do outro lado da janela, na rua que fica bem perto da FIL e do Altice Arena — que esta semana vão receber 60 mil pessoas –, não se ouve nada, mal passam carros. A azáfama que se sente no resto do Parque das Nações não chega ali. “Mas que tipo de sítio é este?”, perguntou Paddy quando saíamos. É um restaurante tipicamente português.
— Então e para beber o que vai ser?
O português do empregado de mesa do Bota Feijão é claro como a água que acabaríamos por beber mais tarde, mas para obter uma resposta de Paddy é preciso tradução. Perguntamos se quer um copo de vinho. “Não, não costumo beber.” Insistimos. Acaba por contar que um dos cofundadores da Web Summit, sempre que vê vinho português na carta de um restaurante, pede, seja em que país for, mas que ele nunca bebe. E uma cerveja portuguesa? “Não, quero mesmo só água com gás.” Nem uma cerveja sem álcool? “Não, fico mesmo bem com uma água com gás.”
— Duas águas com gás, por favor.
— Gelo e limão?
— Sim.
Para estarmos em pé de igualdade, pusemos o nosso telemóvel em “modo de voo”. Na próxima hora, não iam surgir telefonemas, mensagens ou notificações para nenhum dos dois. Ainda estávamos a recuperar da primeira resposta de Paddy — quando assumiu que raramente utilizava o telefone –, quando lhe perguntámos se achava que podia replicar em breve o que fez Aziz Ansari (ator, comediante e criador de uma das séries da Netflix que mais sucesso tem feito entre os millennials, a “Master of None”): desligar-se completamente da Internet. A resposta já não surpreendeu: “Sim”.
“Acho que há questões muito sérias que temos de colocar a nós próprios enquanto sociedade, no que diz respeito a vícios. Cada vez há mais provas de que os adolescentes que passam mais tempo em redes sociais têm maior risco de sofrer de depressão ou até de cometer suicídio. Estes fenómenos são novos. Mas acho que o fenómeno das redes sociais está possivelmente acabado”, disse, já com a Água das Pedras à frente. Gelo e limão.
— Acha mesmo isso?
— Sim. E acho que temos de falar seriamente sobre as consequências sociais negativas de todas estas tecnologias. A tecnologia nem sempre é positiva. Na melhor das hipóteses, é neutra, mas nunca é apenas positiva.

A ideia de que o fundador da mediática Web Summit é cauteloso com a utilização que se faz da tecnologia não é nova, apesar de ser um dos seus principais promotores. Já no ano passado, o irlandês de 34 anos referiu a mesma ideia numa das conferências de imprensa do evento que atraiu mais de 53 mil pessoas a Lisboa. Só para montar a Internet de banda larga que permitiu que toda a gente estivesse online na FIL e no Altice Arena foram precisos 500 programadores. Mas se há consequências negativas, que papel tem então uma cimeira como esta? “É suposto ser um fórum para debate, que dá voz a pessoas de todos os lados“, afirma.

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“A Web Summit é como se fosse um Parlamento: facilita discursos e debates diversificados, alcança uma maior variedade de temas, como os impostos, os vícios, os perigos da inteligência artificial ou monopólios que estão a crescer. Acho que se não discutirmos estas coisas estaríamos a trair alguma da nossa responsabilidade pública enquanto aglutinador do setor tecnológico, talvez o aglutinador tecnológico mais global do mundo”, explica Paddy.

A conversa vai entre perigos, riscos, vícios. Afinal, qual foi a empresa ou app que mais desiludiu o presidente executivo da Web Summit? A resposta não é óbvia: a maior desilusão de Paddy não ocorreu em nenhuma empresa nem em nenhuma aplicação, mas no epicentro do empreendedorismo, em Silicon Valley, nos EUA.
“Acho que a coisa que mais me desilude é a amnésia coletiva de Silicon Valley, não percebem que Silicon Valley nunca foi um centro de empreendedorismo, de investimento privado, é um centro de investimento massivo do Estado. Foi uma subsidiária do Pentágono norte-americano que durante décadas, décadas e décadas não estava a produzir empresas de tecnologia vencedoras a nível mundial. E por isso tornou-se num centro massivo de Investigação & Desenvolvimento do governo norte-americano”, conta.

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— Tudo no telefone, a própria Internet, veio tudo de uma intervenção massiva do Governo norte-americano. E isto é um problema quando um número crescente destas empresas não quer pagar as quotas que devem à sociedade.
— O que andamos a fazer então? Vivemos num mundo distópico?
— É uma consequência.
Paddy tem 34 anos, é presidente de uma conferência de tecnologia que pôs Paris, Lisboa e Amesterdão a competir para recebê-la.

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“Os adolescentes nunca estiveram tão ligados uns aos outros, mas nunca estiveram tão sós. É uma contradição”, afirma.

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— Vamos imaginar que esta hora offline é um dia inteiro offline. O que faria numa cidade como Lisboa?
— Faço isto constantemente, na verdade. Ainda ontem me sentei na varanda do Hotel do Chiado, apenas a ler. Estive a ler sobre o Liberalismo do séc. XVII, sobre Descartes, Rousseau. Mas isto sou eu, que me interesso por estas coisas.
Quando lhe pedimos que nos exemplifique como marcaria um restaurante e decidiria o que fazer à noite senão tivesse Internet, atira-nos com um “Serendipity has been taking hostage. Têm esta expressão em Portugal?”. Respondemos que não, que serendipity é um feliz acaso, uma feliz coincidência e que, sendo assim, em português a expressão significava que a Internet tinha vindo raptar esses felizes acasos e que fez deles seus reféns. “Cresci numa altura em que não tínhamos isto nas nossas mãos. Como encontravas um bom bar? Apenas andavas e reparavas.”
— Disse que estar offline era útil para pensar, mas às vezes parece que as pessoas pensam só para poderem publicar o que pensam nas redes sociais.
— Os algoritmos treinam-nos para tirarmos melhores fotografias, para criarmos conteúdo para o qual olhamos mais vezes. É como se fossemos pequenos hamsters a correr para termos energia.
— E os algoritmos são os nossos mestres?
— São.
— Mas somos nós que estamos a desenvolver estes algoritmos, certo?
— Estamos a criá-los, mas eles estão a mudar o nosso comportamento. Estão fundamentalmente a mudar como operamos enquanto sociedade, estão a criar um novo tipo de feedback.
Está quase a terminar a nossa hora. Pedimos a conta. Não temos telemóvel, como vamos regressar? Perguntamos a um dos empregados do restaurante se pode chamar um táxi. Diz que sim. Vem outro e diz que nos pode dar boleia. “Para onde querem ir? Eu levo-vos lá.” Não era preciso, queríamos mesmo era apanhar um táxi. “Então, venha daí que eu mostro-lhe onde é a praça.” Seguimo-lo. Enquanto estávamos no restaurante, Paddy explica que fenómeno é este das redes sociais. “Antes, tínhamos santos, agora temos influenciadores. Mas já passámos por isto com a televisão, por exemplo”, diz.

(...)

Quando chegámos ao destino — bem depois de esgotarmos a nossa hora offline — o irlandês que não sorri facilmente, sorria com a tal familiaridade que é tipicamente portuguesa. Tira o telemóvel, não para telefonar, mandar mensagens ou tweets, mas para nos mostrar as várias fotos que tem guardadas do filho: o bebé Cloud tem um ano e um mês. Despedimo-nos: “Vemo-nos na próxima semana”.

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