06/04/2020

A mãe natureza colocou-nos a pata em cima

A TODOS, SEM EXCEPÇÃO.
E O MUNDO FICOU DESPENTEADO. E SUSPENDEU APREENSIVO A VELOCIDADE DOS DIAS.

Ponderei bastante antes de escrever sobre tudo isto, tendo em conta a complexidade e os inúmeros artigos / posts / crónicas a que todos já tivemos acesso, neste paradigma digital entre o deslumbre e a repulsa. Mas este blog existe como um diário e é nele que faço um certo exercício terapêutico, onde guardo as memórias mais valiosas e a "caixinha do medo", portanto, e mesmo que nunca se vá esquecer isto, quero deixar aqui gravado.

Não deixa de ser curioso um vírus que nasce na China, onde tantos milhares de pessoas trabalham em condições desumanas, onde as alterações climáticas provocadas por desastres ambientais eram por demais evidentes, numa sociedade direccionada para a produtividade e consumo, venha a abrandar o mundo todo. 
Muito antes de tudo isto acontecer já estávamos doentes, viciados numa viagem alucinante, de consumo, de mais e mais, dinheiro, visibilidade, rede, ganância. A dar tudo por garantido.
A epidemia que estamos a tentar controlar pode ser uma oportunidade excepcional para mudar agulhas, para mudar de vida, no entanto sabemos que poderemos ficar num cenário semelhante ao da Grande Depressão, que será difícil, que herdaremos consequências económicas, financeiras e num padrão de saúde mental. Vai ser difícil sim, e mesmo sendo optimista por defeito, em tempo de crise sou estóica a ter os pés assentes na terra.

Hoje, por toda a parte, o ar infectado pelo Covid-19, e de silêncio, começa, finalmente, a respirar-se.
A mãe natureza obriga-nos a abrandar e mesmo que a humanidade não queira, somos impelidos a consumir menos, a aprender e a dar valor à vida que tínhamos antes de todas as restrições. 

Estamos a entrar na quarta semana de quarentena, de isolamento social, de teletrabalho, de casa-casa-casa, de projectos e sonhos adiados, e já conseguimos sentir o que nos espera. Hoje já não sabemos o que fazer com o tempo, o mesmo que reclamamos dias a fio, somos feitos de saudade. Saudades de pessoas, de conversar, de nos arranjarmos para sair de casa, de ir jantar fora. De abraços, sim, porque existem coisas que são de pele.
E todos teremos os nossos exercícios a fazer, mas é importante desempoeirar os sonhos e começar hoje mesmo a fazer listas de como queremos viver o resto das nossas vidas, dedicar energia à cultura e aos livros (sempre o melhor veludo da alma), viver o silêncio (o meu pedacinho de feitio de monja agradece sempre o silêncio), arrumar a casa e a vida (esse é um dos meus psico-pleasures e a verdade é que não há nada para arrumar mais nesta casa, por isso vou arrumando cada vez mais por "dentro"), alimentar maravilhosamente o corpo (ando a nutrir-me como nunca, a horas certas, refeições pensadas, a beber água e chá em quantidades inimagináveis), manter a positividade (esqueçam as mensagens de medo, o drama para o coração atordoado dos outros e a autocomiseração), os gestos grandiosos, a comunicação.

Gosto de imaginar que o mundo ganancioso e superficial terá provavelmente os dias contados, que este retiro mundial imposto não será em vão, mas isso só o tempo o dirá. 

TODOS TEMOS UMA HISTÓRIA. ESTA É A NOSSA.
Agradeçamos tudo o que de bom temos e, mesmo a viver um dia de cada vez, sem ainda percebermos exactamente o que aí vem, façamos as viagens interiores a que estamos a ser chamados.

Que este seja um brinde à beleza dos reinícios. Nosso e do mundo.
SHARE:
© serendipity. All rights reserved.